José Mauricio Santos Pinheiro em 09/04/2006
Mobilidade, acesso sem fio e convergência são as
palavras de ordem no atual mercado das redes de comunicação.
Trata-se de uma tendência irreversível, que vem
se tornando realidade e incorporando-se ao dia-a-dia dos indivíduos,
principalmente para aqueles interessados nas facilidades tecnológicas
que agregam valor à sua rotina, seja no trabalho, em
casa ou no lazer.
A possibilidade da utilização de tecnologias
de voz em redes sem fio, por exemplo, torna-se cada vez mais
um argumento forte para impulsionar o mercado das redes de
computadores e, de quebra, torna-se uma preocupação
a mais para os profissionais incumbidos pela administração
dos recursos da rede.
A voz como informação
A transmissão de voz em redes sem
fio pode não ser uma coisa nova em termos tecnológicos,
mas, sem dúvida, é algo novo em termos de serviço.
Até pouco tempo atrás limitado às redes
tradicionais de telefonia, o serviço de transmissão
de voz vem se tornando uma solução viável
no ambiente das redes sem fio das empresas e mesmo nas residências.
Para que a voz seja transmitida através de uma rede
de computadores, ela deve ser transformada para o formato
digital (bits) e enviada na forma de pacotes. Logo passa a
ser vista como "informação" e não
mais como "voz". Esse conceito, adaptado à
realidade das redes sem fio, herda todas as vantagens e problemas
que qualquer transmissão de dados teria, uma vez que
não existe qualquer distinção entre ambos
os tráfegos (pacotes de voz ou de dados).
Quando essa técnica de transmissão é
introduzida sobre uma solução sem fio, os aspectos
tecnológicos observados são basicamente os mesmos
que já existem para a rede antes destinada ao tráfego
exclusivo de dados, uma vez que, na prática, o que
estamos implementando é o transporte da voz (no formato
digital) utilizando um protocolo específico (neste
caso, o protocolo IP) e apresentando os mesmos mecanismos
e funcionalidades quando são transportados apenas dados.
Exposição e ameaças
"À medida que a utilização
de voz cresce em uma rede, também crescerá a
exposição dessa rede às ameaças
de segurança". Por se tratar de uma tecnologia
que utiliza a infra-estrutura de uma rede sem fio, é
natural pressupor que esta afirmativa seja fundamentada e
que o tráfego de voz implique realmente em novos riscos
quando abordamos os aspectos de segurança para uma
rede de computadores.
Todavia, devemos observar que, se uma rede sem fio segue regras
de segurança eficientes para a transmissão das
informações, o tráfego de dados é
seguro e o de voz também o será, pois, como
os canais de comunicação são os mesmos,
a voz herda a segurança que a rede sem fio oferece
para os dados. Entretanto, se a rede sem fio não oferece
nenhum meio de proteção para a informação
digital, as transmissões de sinais de voz também
não terão qualquer tipo de segurança.
Por exemplo, no caso dos hotspots que oferecem acesso sem
fio à internet livremente e sem oferecer qualquer nível
de segurança, tanto dados quanto voz estarão
sujeitos aos vários tipos de riscos e ataques encontrados
nesse ambiente inseguro. Cabe ao usuário do serviço
providenciar garantias quanto à privacidade de suas
comunicações, estabelecendo políticas
de acesso capazes de oferecer segurança para a informação
que deseja transmitir.
Na verdade, a união entre voz e redes sem fio não
traz ameaças novas ou que não possam ser combatidas
com políticas de segurança eficientes, embora
essa associação possa, certamente, aumentar
os efeitos das vulnerabilidades da rede por várias
razões.
Por exemplo, é comum um administrador de rede buscar
formas alternativas de prover aos seus usuários funcionalidades
de rede adicionais (telefonia, por exemplo). Neste aspecto,
a segurança deve tornar-se um dos fatores e característica
mais importante dos serviços disponibilizados, sendo
que as funcionalidades oferecidas devem considerar a aplicação
de políticas de segurança que sejam integradas
e capazes de abranger a totalidade da rede.
Por esse motivo, é extremamente importante que as empresas
adotem políticas de segurança adequadas para
protegerem seus ativos de rede, tanto para a comunicação
de dados, quanto para a comunicação de voz.
As formas disponíveis para reduzir os riscos na transmissão
de voz em redes sem fio são as mesmas que se aplicam
às redes antes destinadas ao tráfego exclusivo
de dados, são elas: a autenticação por
endereço MAC e a criptografia.
Tanto a autenticação por endereço MAC
como algumas chaves de criptografia (WEP, por exemplo), são
consideradas como de nível de segurança fraco,
estando mais vulneráveis a ataques. Outras especificações
mais recentes (série IEEE 802.1x, WPA e WPA2, por exemplo)
são consideradas mais seguras, permitindo a autenticação
e encriptação do tráfego de dados com
maior eficiência.
Projetos de voz em WLAN
Os projetos que envolvem a transmissão de voz sobre
redes locais sem fio – WLAN’s - devem buscar funcionalidades
cujas principais preocupações devem girar em
torno de implementações quanto à mobilidade,
segurança e à qualidade de serviço oferecido.
A autenticação dos usuários e dos dispositivos
de rede, assim como a introdução de protocolos
de criptografia mais evoluídos, torna-se igualmente
uma necessidade que não pode ser relegada a um plano
secundário.
Mobilidade
Em termos de mobilidade, é claramente uma vantagem
essa integração entre voz e redes se fio, pois
já temos uma infra-estrutura pronta e vamos tirar partido
dessa mesma infra-estrutura. A preocupação adicional
fica por conta do alcance, da forma de cobertura e da forma
de proteção do sistema de rádio escolhido.
Segurança
Ao nível da segurança, os vários mecanismos
disponíveis nos dispositivos sem fio devem ser estendidos
aos demais dispositivos associados com a transmissão
de voz. É fundamental que os administradores da rede
se lembrem que é importante (e necessário) configurar
as funcionalidades de segurança (tais como criptografia
e firewall) para proteger a rede de possíveis ataques.
A segurança deve partir de uma filosofia centrada na
necessidade de implementar políticas de acesso aos
principais recursos da rede com o objetivo de deter os ataques
antes que estes afetem os servidores ou outros dispositivos.
Por exemplo, temos freewares e sharewares cujo tráfego
de pacotes ou a transferência de arquivos não
é detectada pelo tradicional firewall. Usar um aplicativo
destes como solução corporativa caracteriza-se,
seguramente, como uma falha na segurança.
Sempre é bom lembrar também que os pacotes de
voz pode ser um alvo de ataques de spam, DoS, spoofing e phishing,
resultando em danos graves como perda de confidencialidade,
indisponibilidade dos serviços de comunicação,
entre outros.
A utilização de sistemas modulares que permitam
lidar com problemas de segurança em qualquer ponto
da rede (e não apenas nos pontos de acesso) pode oferecer
um maior grau de segurança nesse caso. No entanto,
devido à especificidade de algumas soluções
e as novas tecnologias emergentes, as soluções
devem se preocupar em trabalhar na segurança das redes
sem fio, principalmente ao nível da intrusão.
Uma vez garantido o nível de segurança no que
diz respeito à infra-estrutura, as questões
de segurança podem ser tratadas no nível de
aplicação e não mais em relação
ao meio utilizado.
Qualidade de Serviço
A voz é um tipo de serviço em tempo real que
não admite latência na rede, ou seja, o tempo
de envio do pacote de voz é o ponto chave para a transmissão
em redes onde trafegam pacotes de dados. Os pacotes de voz,
ao contrário da maioria dos pacotes de dados, necessitam
de uma rede estável que ofereça baixa latência
e um mínimo atraso (delay), ou seja, necessitam de
redes que ofereçam uma Qualidade de Serviço
- QoS (Quality of Service).
É através do QoS que os fluxos de dados das
aplicações podem ser categorizados em classes
de serviço e assim passam a receber um tratamento diferenciado,
de acordo com a importância de cada pacote. Este tratamento
se dá normalmente por mecanismos de controle e de priorização
de fluxo.
Por exemplo, temos a seguinte situação: uma
rede com link de Internet, por onde trafegam vários
pacotes de diferentes serviços como: FTP, HTTP, SMTP,
etc. Uma estação de trabalho conectada nesta
rede consome uma determinada banda de transmissão para
enviar e receber informações. Se houver uma
conexão de voz ativa nesta mesma máquina, a
banda consumida tende a aumentar mesmo que seja usado algum
tipo de compressão para os dados.
Se, nesta mesma rede, passamos a ter outras máquinas
realizando as mesmas funcionalidades da primeira, mas realizando
ainda downloads ou uploads de arquivos de forma simultânea,
nesta condição teríamos a possibilidade
de um link saturado, com a toda a banda praticamente consumida
e, neste caso, a conexão de voz seria certamente prejudicada
porque não haveria prioridade para os pacotes de voz.
Isso acontece porque os pacotes de voz precisam sair em tempo
real e sem atraso (ou com o mínimo de atraso possível),
mas se a rede não oferece uma forma de priorizar os
pacotes de voz, simplesmente qualquer pacote que chegar primeiro
terá a preferência para ser transmitido. Assim,
os pacotes de voz esperariam outros pacotes que estivessem
na sua frente disputando a banda disponível e teriam
sua saída retardada.
O que se faz na prática é colocar todos os pacotes
de voz na frente dos outros pacotes ou disponibilizar uma
quantidade específica de banda para que esses pacotes
tenham prioridade de transmissão na rede. Neste caso,
os pacotes sem prioridade ficam aguardando a sua vez para
serem transmitidos, enquanto os prioritários utilizam
toda a banda ou uma parte predefinida dela. As outras aplicações
ou pacotes, ou aguardam a sua vez, ou recebem uma porcentagem
menor da banda. Assim, se um usuário da rede tentar
fazer um download ao mesmo tempo em que outro estiver fazendo
uma conexão de voz na mesma rede, o QoS dará
preferência para a ligação de voz.
Prós e contras
A utilização de voz em redes
sem fio é realmente importante pelos benefícios
que oferece, seja pela comodidade que traz ao usuário,
seja por causa da redução de custos com telecomunicações
que possibilita.
A transmissão de voz está sujeita aos mesmos
problemas de segurança que uma rede sem fio oferece
para a transmissão de dados, estando susceptível
aos mesmos tipos de ataques, ou seja, se não for corretamente
protegida, a voz (digitalizada sob a forma de pacotes) pode
ser igualmente capturada, permitindo aos intrusos a utilização
indevida das informações. Essa preocupação
com a transmissão de voz é tão importante
em termos de segurança como em termos da transmissão
de qualquer outro tipo de informação sobre o
mesmo ambiente.
Por fim, além dos habituais cuidados com o acesso à
informação em uma infra-estrutura sem fio, com
a voz temos uma preocupação adicional: os problemas
ocasionados pela introdução de atrasos nos pacotes
de voz, que podem reduzir a qualidade percebida em termos
de conversação e até interromper a própria
comunicação.
José Maurício Santos Pinheiro
Professor Universitário, Projetista e Gestor de Redes,
membro da BICSI, Aureside, IEC e autor dos livros
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